quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

ABRE O ZÓI!

“O pior cego é aquele que não quer enxergar” é um veemente lampejo sobre as limitações humanas e o direito presentes na obra de José Saramago. Pra mim, é cascudo seguido da fala: “abre o zói” – uma expressão norteadora de caminhos, atitudes, além de instrutiva, proferida pela mais augusta das mulheres: “a mãe nordestina”.

 

Celebrada como um símbolo de força, coragem e resiliência é a coluna mestra (a "matriarca") da família. Caracterizada por sua capacidade de superação frente aos desafios históricos e sociais da região, tem no amor incondicional e na postura firme os vetores para a educação dos filhos, dentro dos padrões de retidão altruísta e prudente coragem.

 

Moldada por um sincretismo religioso que une tradições católicas, indígenas e de matriz africana, onde a fé atua tanto como proteção quanto como herança cultural, ser “mãe nordestina é uma identidade sagrada e guerreira, contemplada e festejada como uma "entidade" que nutre, cuida e cura, perpetuando o poder feminino ancestral na sociedade. 

 

Ser mãe nordestina é uma "obra à parte", que mistura a "terra vermelha" (raízes) com a necessidade de se adaptar e superar, mantendo a alegria e a tradição. Reconhecida como patrimônio cultural, a matriarca é a guardiã do que há de mais inefável na arte de “ser nordestino", riqueza com que ela adorna gerações e gerações de seres humanos dignos.

 

A "arte de ser nordestino" é reverbera continuamente a resiliência, a criatividade e a humanidade de um povo que transforma sua história em um adorno para o mundo. Ser nordestino é carregar um legado vibrante que transforma as dificuldades em identidade e beleza, com a qual influencia através da música e das artes em geral todo o Brasil.

 

Ser nordestino é carregar uma herança onde a escassez de chuva nunca significou escassez de alma. Essa "riqueza" que adorna gerações é forjada na resistência, na (re)inventividade e em uma dignidade que transforma o barro em arte e o repente em sabedoria. O Nordeste não é apenas um lugar no mapa, mas um estado de espírito que enobrece quem o vive. 

 

A relevância de ser nordestino é carregar a essência da brasilidade, valorizando a família, a fé, a alegria, a hospitalidade e a honra, valores que são passados como joias de pais para filhos, mantendo viva a chama da ancestralidade, mesmo diante das adversidades. O nordestino é, acima de tudo, perseverante, cativante, proeminente e, por que não, radiante.

 

Ser nordestino é ser um pilar central da identidade brasileira, unindo uma herança histórica profunda a um protagonismo econômico e político crescente. O Nordeste é berço de grandes intelectuais e artistas que moldaram a literatura e a música brasileira, como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos, Luiz Gonzaga, entre outros.

 

Augusto dos Anjos, destacado nordestino e poeta brasileiro singular do pré-modernismo explora, em sua poesia, o "Eu", o cosmos e a busca por verdades universais através de uma linguagem técnica e metafísica, o que por vezes ressoa com a busca por conhecimento defendida pela Maçonaria, embora com ela nenhum vínculo documentado exista, que não sejam homenagens póstumas. 

 

João Cabral de Melo Neto, famosamente conhecido como o "poeta engenheiro" por seu estilo racional e por obras como “A Educação pela Pedra”, onde termos como "pedra bruta", "lapidação" e "construção" são centrais em sua poética, referindo-se ao rigor formal e à estética literária, e não a rituais maçônicos, pelo que defendia, teria sido um excelente maçom.

 

Sua a trajetória é amplamente documentada pela Academia Brasileira de Letras, focando em sua carreira como diplomata e um dos maiores expoentes da Geração de 45 – do qual é expoente máximo, buscando um retorno ao equilíbrio e à pesquisa estética, após as rupturas mais explosivas do no Teatro Municipal Paulistano (1922), onde vaias e gritos repudiavam aos modernistas.  

 

Sua carreira no Itamaraty, laborada por mais de quatro décadas, o levou a cidades como Barcelona e Sevilha, além de outros significativos países, cujas paisagens e cultura (como as touradas e o flamenco) fundiram-se à sua temática nordestina original. As paisagens e culturas estrangeiras influenciaram sua visão de mundo e a construção de sua obra. 

 

A obra de João Cabral é marcada pela temática do Nordeste (seus engenhos, o rio Capibaribe), pela secura do sertão e pela objetividade, sem sentimentalismo. O poema dramático "Morte e Vida Severina" é seu trabalho mais celebrado, utilizando o rigor técnico para denunciar a realidade social e o “êxodo nordestino” – um marco da literatura engajada socialmente no Brasil.

 

Luiz Gonzaga, "Rei do Baião" e Pernambucano arretado, foi um membro ativo da Maçonaria, iniciado em abril de 1971 na Loja Paranapuan, no Rio de Janeiro. Exerceu uma política cultural e social através da música, denunciando mazelas do Nordeste, como em "Vozes da Seca", embora mantendo postura conservadora, o que conflitava com seu filho, Gonzaguinha.

 

Durante a ditadura militar, Luiz Gonzaga manteve uma relação cordial com o regime, uma postura pragmática de aproximação com o poder instituído para tentar viabilizar projetos de desenvolvimento e infraestrutura para sua região, muitas vezes ignorada. Ele “zoiava” o mosaico-vida e via que o progresso, em todos os sentidos, é fruto da feliz convivência que o diálogo constrói.

 

Chamado ao político-partidaríssimo, percebeu que políticos e eleitores tentavam "comprar e vender" votos, uma argucia que aborreceu Gonzaga, que declarou não precisar pagar para ser eleito. Incorruto, preferiu manter sua posição como “súdito do amor de seu povo” e como "monarca da sanfona", em vez de entrar em um sistema que considerava estranho aos seus valores. 

 

Em 2024, Luiz Gonzaga foi oficialmente inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, consolidando seu papel político como símbolo da resistência cultural nordestina. Suas músicas, ainda hoje, exigem condições básicas para prosperarem os nordestinos, destacando a seca e a desigualdade, denunciando a marginalização da região, como que dizendo: “abre o zói”!

 

Abre o zói, representa, além de um olhar curioso, observador, com venturante boa vontade e vivaz respeito pelo outro, um efusivo chamado estar atento, vigilante ou alerta a sinais de alerta, principalmente, quando algo pode sair fora de controle ou há iminente engano à vista. É olhar digressões e perfídias sob a candieiro da alteridade, com faz a “Mãe Nordestina.

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