“O
pior cego é aquele que não quer enxergar” é um veemente lampejo sobre as limitações
humanas e o direito presentes na obra de José Saramago. Pra mim, é cascudo
seguido da fala: “abre o zói” – uma expressão norteadora de caminhos, atitudes,
além de instrutiva, proferida pela mais augusta das mulheres: “a mãe nordestina”.
Celebrada
como um símbolo de força, coragem e resiliência é a coluna mestra (a "matriarca")
da família. Caracterizada por sua capacidade de superação frente aos
desafios históricos e sociais da região, tem no amor incondicional e na postura
firme os vetores para a educação dos filhos, dentro dos padrões de retidão altruísta
e prudente coragem.
Moldada
por um sincretismo religioso que une tradições católicas, indígenas e de matriz
africana, onde a fé atua tanto como proteção quanto como herança cultural, ser “mãe
nordestina é uma identidade sagrada e guerreira, contemplada e festejada como
uma "entidade" que nutre, cuida e cura, perpetuando o poder feminino
ancestral na sociedade.
Ser
mãe nordestina é uma "obra à parte", que mistura a "terra
vermelha" (raízes) com a necessidade de se adaptar e superar, mantendo a
alegria e a tradição. Reconhecida como patrimônio cultural, a
matriarca é a guardiã do que há de mais inefável na arte de “ser nordestino", riqueza
com que ela adorna gerações e gerações de seres humanos dignos.
A
"arte de ser nordestino" é reverbera continuamente a resiliência, a criatividade
e a humanidade de um povo que transforma sua história em um adorno para o
mundo. Ser nordestino é carregar um legado vibrante que transforma as
dificuldades em identidade e beleza, com a qual influencia através da música e das
artes em geral todo o Brasil.
Ser
nordestino é carregar uma herança onde a escassez de chuva nunca significou
escassez de alma. Essa "riqueza" que adorna gerações é forjada
na resistência, na (re)inventividade e em uma
dignidade que transforma o barro em arte e o repente em sabedoria. O Nordeste
não é apenas um lugar no mapa, mas um estado de espírito que enobrece quem o
vive.
A
relevância de ser nordestino é carregar a essência da brasilidade, valorizando
a família, a fé, a alegria, a hospitalidade e a honra, valores que são passados como joias de pais para filhos, mantendo viva a chama da
ancestralidade, mesmo diante das adversidades. O nordestino é, acima de tudo, perseverante,
cativante, proeminente e, por que não, radiante.
Ser
nordestino é ser um pilar central da identidade brasileira, unindo uma herança
histórica profunda a um protagonismo econômico e político crescente. O Nordeste
é berço de grandes intelectuais e artistas que moldaram a literatura e a música
brasileira, como Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Augusto dos Anjos, Luiz
Gonzaga, entre outros.
Augusto
dos Anjos, destacado nordestino e poeta brasileiro singular do pré-modernismo
explora, em sua poesia, o "Eu", o cosmos e a busca por verdades
universais através de uma linguagem técnica e metafísica, o que por vezes
ressoa com a busca por conhecimento defendida pela Maçonaria, embora com ela nenhum
vínculo documentado exista, que não sejam homenagens póstumas.
João
Cabral de Melo Neto, famosamente conhecido como o "poeta engenheiro"
por seu estilo racional e por obras como “A Educação pela Pedra”, onde
termos como "pedra bruta", "lapidação" e
"construção" são centrais em sua poética, referindo-se ao rigor
formal e à estética literária, e não a rituais maçônicos, pelo que defendia,
teria sido um excelente maçom.
Sua
a trajetória é amplamente documentada pela Academia Brasileira de Letras,
focando em sua carreira como diplomata e um dos maiores expoentes da Geração de
45 – do qual é expoente máximo, buscando um retorno ao equilíbrio e à pesquisa
estética, após as rupturas mais explosivas do no Teatro Municipal Paulistano
(1922), onde vaias e gritos repudiavam aos modernistas.
Sua
carreira no Itamaraty, laborada por mais de quatro décadas, o levou a cidades
como Barcelona e Sevilha, além de outros significativos países, cujas
paisagens e cultura (como as touradas e o flamenco) fundiram-se à sua temática
nordestina original. As paisagens e culturas estrangeiras influenciaram sua
visão de mundo e a construção de sua obra.
A
obra de João Cabral é marcada pela temática do Nordeste (seus engenhos, o rio
Capibaribe), pela secura do sertão e pela objetividade, sem
sentimentalismo. O poema dramático "Morte e Vida
Severina" é seu trabalho mais celebrado, utilizando o rigor
técnico para denunciar a realidade social e o “êxodo nordestino” – um marco da
literatura engajada socialmente no Brasil.
Luiz
Gonzaga, "Rei do Baião" e Pernambucano arretado, foi um membro
ativo da Maçonaria, iniciado em abril de 1971 na Loja Paranapuan, no Rio de
Janeiro. Exerceu uma política cultural e social através da música, denunciando
mazelas do Nordeste, como em "Vozes da Seca", embora mantendo postura
conservadora, o que conflitava com seu filho, Gonzaguinha.
Durante
a ditadura militar, Luiz Gonzaga manteve uma relação cordial com o regime, uma
postura pragmática de aproximação com o poder instituído para tentar viabilizar
projetos de desenvolvimento e infraestrutura para sua região, muitas vezes
ignorada. Ele “zoiava” o mosaico-vida e via que o progresso, em todos os
sentidos, é fruto da feliz convivência que o diálogo constrói.
Chamado
ao político-partidaríssimo, percebeu que políticos e eleitores tentavam
"comprar e vender" votos, uma argucia que aborreceu Gonzaga, que
declarou não precisar pagar para ser eleito. Incorruto, preferiu manter sua
posição como “súdito do amor de seu povo” e como "monarca da sanfona",
em vez de entrar em um sistema que considerava estranho aos seus valores.
Em
2024, Luiz Gonzaga foi oficialmente inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da
Pátria, consolidando seu papel político como símbolo da resistência cultural
nordestina. Suas músicas, ainda hoje, exigem condições básicas para prosperarem
os nordestinos, destacando a seca e a desigualdade, denunciando a
marginalização da região, como que dizendo: “abre o zói”!
Abre
o zói, representa, além de um olhar curioso, observador, com venturante boa
vontade e vivaz respeito pelo outro, um efusivo chamado estar atento,
vigilante ou alerta a sinais de alerta, principalmente, quando algo pode
sair fora de controle ou há iminente engano à vista. É olhar digressões e
perfídias sob a candieiro da alteridade, com faz a “Mãe Nordestina.

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