No Brasil, o "Dia
da Lembrança", comemorado neste dia, não é um feriado nacional
unificado com um simbolismo histórico específico e amplamente reconhecido, como
acontece em países da Commonwealth (onde o Remembrance Day homenageia
veteranos de guerra), por exemplo. O simbolismo aqui é de um momento de reflexão
pós-Natal, para recordar as coisas boas e ruins do ano que passou e
valorizar as memórias afetivas.
Embora não seja
pós-Natal, evoco o Deus Romano Jano (Janus Bicephalus), com seus dois rostos
olhando para o passado e para o futuro (simultaneamente), simboliza
perfeitamente a reflexão sobre o que passou e o planejamento para o que virá,
frequentemente associado à transição do Ano Novo. Jano (ianua, em latim,
de onde se origina a palavra "janela") Ele é o guardião de portais
físicos e não físicos, como a passagem de um ano para o outro.
A representação
bicefálica simboliza o domínio sobre o tempo, olhando para trás, para o que
passou, e para a frente, para o que está por vir. Uma face pode ser
representada como mais jovem (futuro e os desígnios do porvir) e a outra mais
velha (passado e seus robustos legados). Sua influência é tão profunda que o
primeiro mês do ano, janeiro (Januarius), foi nomeado em sua
homenagem, servindo como a "porta" para o novo ciclo.
Considerado um
intermediário entre mortais e deuses, Jano é invocado no início de cada ritual
e oração, pois, se acreditava que suas bênçãos são essenciais para o sucesso de
novos empreendimentos e para a fluidez dos protagonismos. Janus bicephalus
simboliza a natureza dual da existência e a inevitabilidade das mudanças,
representando a sabedoria de aprender com o passado enquanto se antecipa e se
prepara para o futuro.
Retrospectiva é o ato de
olhar para trás para analisar o passado, ao qual dos chama Janus, revisando
eventos, experiências e aprendizados com o objetivo de compreender o que
aconteceu, celebrar conquistas e, principalmente, aprender para melhorar o
futuro, sendo muito usada em metodologias ágeis para otimizar processos e
equipes, mas também, em exposições de arte ou relatos anuais. A psicologia
a chama esta agência de: "anamnésis" (lembrança).
A anamnese é a espinha
dorsal da consulência eficaz, fornecendo os dados subjetivos (relatos do
consulente) que, combinados com os dados objetivos notoriamente comprovados,
levam a um diagnóstico exato e perspicaz. É uma troca de informações baseada na
confiança e empatia, desvelando o contexto do paciente que vetoriza a busca, a
identificação e o imediato emprego da mais proeminente solução à necessidade
apontada.
Retrospectiva, anamnese
e/ou lembrança, como que a chamamos é a força indelével que transforma o
passado em um catalisador para o futuro, usando a reflexão para
impulsionar melhorias em diversas áreas do psiquê humano e estimulando os
indivíduos ao (auto) desenvolvimento contínuo, sob os auspícios do (auto) conhecimento.
Um balanço de fim de ano para refletir sobre a vida, emoções, saúde e
conquistas, é disto um vivaz exemplo.
O exemplo se manifesta no
ensino e na moldagem de comportamentos que faz de forma mais eficaz que as
palavras, pois, torna a verdade tangível e inspira mudança positiva, sendo
crucial na educação, formação de caráter e desenvolvimento de valores, já a
aprendizagem de dá por observação e/ou por recordação, e a incoerência entre
discurso e prática gera confusão, tornando os adultos referências (boas ou
ruins) para as crianças e a sociedade.
Ser-se um exemplo é uma assunção
de responsabilidade de influência que molda o futuro das pessoas e da
sociedade, radicando que as ações falam mais alto que as palavras. Até
maus exemplos são úteis, pois mostram referências do que se deve
evitar. Essencialmente, significa que a maneira como vivemos e nos
comportamos inspirar os outros, o que nos leva a garantir que nossas ações e
valores tenham um significado duradouro.
Denota uma conexão
profunda entre agir de forma exemplar e manter-se importante ou impactante
(recordável). Retrata pessoas que agem com integridade, bondade e
responsabilidade e que demonstram liderança moral. Enfatiza que a autoridade
moral e a influência genuína são conquistadas por meio de ações consistentes e
que servem de modelo, em vez de serem meramente declaradas ou exigidas. Envolve
ser-se homem reputável.
Reflete uma reputação
construída ao longo do tempo através de ações consistentes e conduta exemplar. Descreve
o homem memorável que possui uma boa reputação, ou seja, alguém que é
amplamente considerado honesto, confiável e respeitável por outras pessoas; que
tem um peso significativo em testemunhos de caráter, referências de emprego e/ou
na percepção pública de sua credibilidade, pois, age de acordo com princípios
morais sólidos.
Digno de ser lembrado, notável, pois,
deixa uma impressão duradoura e positiva nas pessoas e no
mundo, o homem memorável se destaca não por fama ou riqueza, mas, por seu
caráter, ações e pelo impacto de suas interações. Ele se move com
uma missão ou objetivo claro, em vez de ser guiado apenas por humores
momentâneos, e busca constantemente ser uma pessoa melhor (emocional,
intelectual e espiritualmente).
Irrefutavelmente, um
homem memorável é aquele cuja existência e ações merecem ser conservadas na
memória, superando o cotidiano e deixando um legado que ressoa com os
outros. Um indivíduo que deixa uma marca duradoura naqueles que orbitam em
seu redor, não por autopromoção, mas pela força de seus feitos e efeitos guiados
pelas mais excelsas virtudes humanas, pois, as vive e as exercer, independentemente
de quem o observa.
Notável por compartilhar
conhecimento e mentorizar quem está ao seu redor, sendo lembrado mais pelo que
fez pelos outros do que por suas posses, vive ad aeternum o homem memória (ou
“homem musa”) de geração em geração com um farol de imaginação, inventividade e
criatividade, personificando a inspiração, sob o olhar contemplativo de quem o
fita com a proficuidade de um lavrador que colhe em seu pomar os mais belos,
nutritivos e aprazíveis frutos.
O "homem
memória" é aquele cuja personalidade e consciência são construídas a
partir de suas experiências passadas. Sem memória, não haveria linguagem
complexa ou senso de self. A memória é intrínseca à natureza humana,
moldando a forma como o homem percebe a si mesmo, interage com o mundo e
constrói seu futuro com base no passado. Recordar experiências e reconhecê-las
permite ao ser humano saber quem ele é e de onde veio.
Mnemósine (a memória), é
a mãe das Musas e a inventora das palavras e do pensamento. Filosoficamente, a
memória é crucial para a existência da linguagem e da comunicação, pois, é a
capacidade de lembrar nomes e significados compartilhados que permite a
interação social. Segundo Maurice Halbwachs a memória é um fenômeno coletivo e
social que influencia a formação das identidades sociais, como nacionais,
familiares e culturais.
Filósofos modernos e
contemporâneos veem o ser humano como uma consciência em busca de realização,
que se desenvolve através do acúmulo e reflexão sobre experiências, orientando
ações e promovendo o equilíbrio interior e a humanização. Essa visão
sintetiza uma mudança fundamental na história do pensamento: a transição da
definição do ser humano como uma "natureza fixa" para um
"projeto em construção".
O equilíbrio interior não
é um estado estático, mas a capacidade da consciência de integrar sucessos,
falhas e aprendizados em uma narrativa coerente que promova o desenvolvimento
contínuo da própria humanidade. Como propõe Paul Ricoeur, o
"si-mesmo" se constrói como um outro, em um diálogo constante entre o
que vivemos e como narramos nossa história, o que envolve recordação
(lembrança) das experienciações vividas.
Lembrar é viver
incontáveis vezes na perene busca da mais aprimorada versão de nós, mesmo que a
jornada em direção a uma versão melhor de nós mesmos nunca termine, é um
esforço contínuo e que se repete ao longo da vida. É um incentivo à
introspecção e à busca incessante pelo autoconhecimento e aprimoramento
pessoal. Ao revisitar o passado com a intenção de aprender, podemos
conscientemente moldar quem nos tornamos no futuro.
Lembrança é algo
formidável, o que me faz lembrar que no Brasil, Renato Alves foi o
primeiro recordista oficial de memória do país. Seguido por Alberto
Dell'Isola, recordista sul-americano conhecido por suas técnicas de
associação visual. E eles me fazem recordar do indiano Vishvaa Rajakumar, que
se tornou campeão mundial em 2025 ao memorizar 80 números aleatórios em apenas
13,5 segundos.
Lembrei-me tanto, e de
tantas coisas, que me esqueci que o Dia da Lembrança é um dia para se lembrar,
o dia do ano dedicado à (auto)análise no qual rememoramos as mais augustas
experienciações vividas, que são o lume formidável das incontáveis
(re)contações de nossas Histórias que continuamente virão; e a mais robusta
coluna erigida dia a dia com a função de sustentar o porvir mais justo e feliz
para nossas vidas. É o momento de respondermos: quem bem fiz ao mundo?
Parabéns pela matéria, muito esclarecedora e bem lembrada.
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