sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

LEMBRANÇA, UM DIA PARA SE LEMBRAR

 

No Brasil, o "Dia da Lembrança", comemorado neste dia, não é um feriado nacional unificado com um simbolismo histórico específico e amplamente reconhecido, como acontece em países da Commonwealth (onde o Remembrance Day homenageia veteranos de guerra), por exemplo. O simbolismo aqui é de um momento de reflexão pós-Natal, para recordar as coisas boas e ruins do ano que passou e valorizar as memórias afetivas.

 

Embora não seja pós-Natal, evoco o Deus Romano Jano (Janus Bicephalus), com seus dois rostos olhando para o passado e para o futuro (simultaneamente), simboliza perfeitamente a reflexão sobre o que passou e o planejamento para o que virá, frequentemente associado à transição do Ano Novo. Jano (ianua, em latim, de onde se origina a palavra "janela") Ele é o guardião de portais físicos e não físicos, como a passagem de um ano para o outro.

 

A representação bicefálica simboliza o domínio sobre o tempo, olhando para trás, para o que passou, e para a frente, para o que está por vir. Uma face pode ser representada como mais jovem (futuro e os desígnios do porvir) e a outra mais velha (passado e seus robustos legados). Sua influência é tão profunda que o primeiro mês do ano, janeiro (Januarius), foi nomeado em sua homenagem, servindo como a "porta" para o novo ciclo. 

 

Considerado um intermediário entre mortais e deuses, Jano é invocado no início de cada ritual e oração, pois, se acreditava que suas bênçãos são essenciais para o sucesso de novos empreendimentos e para a fluidez dos protagonismos. Janus bicephalus simboliza a natureza dual da existência e a inevitabilidade das mudanças, representando a sabedoria de aprender com o passado enquanto se antecipa e se prepara para o futuro.

 

Retrospectiva é o ato de olhar para trás para analisar o passado, ao qual dos chama Janus, revisando eventos, experiências e aprendizados com o objetivo de compreender o que aconteceu, celebrar conquistas e, principalmente, aprender para melhorar o futuro, sendo muito usada em metodologias ágeis para otimizar processos e equipes, mas também, em exposições de arte ou relatos anuais. A psicologia a chama esta agência de: "anamnésis" (lembrança).

 

A anamnese é a espinha dorsal da consulência eficaz, fornecendo os dados subjetivos (relatos do consulente) que, combinados com os dados objetivos notoriamente comprovados, levam a um diagnóstico exato e perspicaz. É uma troca de informações baseada na confiança e empatia, desvelando o contexto do paciente que vetoriza a busca, a identificação e o imediato emprego da mais proeminente solução à necessidade apontada.

 

Retrospectiva, anamnese e/ou lembrança, como que a chamamos é a força indelével que transforma o passado em um catalisador para o futuro, usando a reflexão para impulsionar melhorias em diversas áreas do psiquê humano e estimulando os indivíduos ao (auto) desenvolvimento contínuo, sob os auspícios do (auto) conhecimento. Um balanço de fim de ano para refletir sobre a vida, emoções, saúde e conquistas, é disto um vivaz exemplo.

 

O exemplo se manifesta no ensino e na moldagem de comportamentos que faz de forma mais eficaz que as palavras, pois, torna a verdade tangível e inspira mudança positiva, sendo crucial na educação, formação de caráter e desenvolvimento de valores, já a aprendizagem de dá por observação e/ou por recordação, e a incoerência entre discurso e prática gera confusão, tornando os adultos referências (boas ou ruins) para as crianças e a sociedade. 

 

Ser-se um exemplo é uma assunção de responsabilidade de influência que molda o futuro das pessoas e da sociedade, radicando que as ações falam mais alto que as palavras. Até maus exemplos são úteis, pois mostram referências do que se deve evitar.  Essencialmente, significa que a maneira como vivemos e nos comportamos inspirar os outros, o que nos leva a garantir que nossas ações e valores tenham um significado duradouro.

 

Denota uma conexão profunda entre agir de forma exemplar e manter-se importante ou impactante (recordável). Retrata pessoas que agem com integridade, bondade e responsabilidade e que demonstram liderança moral. Enfatiza que a autoridade moral e a influência genuína são conquistadas por meio de ações consistentes e que servem de modelo, em vez de serem meramente declaradas ou exigidas. Envolve ser-se homem reputável.

 

Reflete uma reputação construída ao longo do tempo através de ações consistentes e conduta exemplar. Descreve o homem memorável que possui uma boa reputação, ou seja, alguém que é amplamente considerado honesto, confiável e respeitável por outras pessoas; que tem um peso significativo em testemunhos de caráter, referências de emprego e/ou na percepção pública de sua credibilidade, pois, age de acordo com princípios morais sólidos.  

 

Digno de ser lembradonotável, pois, deixa uma impressão duradoura e positiva nas pessoas e no mundo, o homem memorável se destaca não por fama ou riqueza, mas, por seu caráter, ações e pelo impacto de suas interações.  Ele se move com uma missão ou objetivo claro, em vez de ser guiado apenas por humores momentâneos, e busca constantemente ser uma pessoa melhor (emocional, intelectual e espiritualmente).

 

Irrefutavelmente, um homem memorável é aquele cuja existência e ações merecem ser conservadas na memória, superando o cotidiano e deixando um legado que ressoa com os outros. Um indivíduo que deixa uma marca duradoura naqueles que orbitam em seu redor, não por autopromoção, mas pela força de seus feitos e efeitos guiados pelas mais excelsas virtudes humanas, pois, as vive e as exercer, independentemente de quem o observa. 

 

Notável por compartilhar conhecimento e mentorizar quem está ao seu redor, sendo lembrado mais pelo que fez pelos outros do que por suas posses, vive ad aeternum o homem memória (ou “homem musa”) de geração em geração com um farol de imaginação, inventividade e criatividade, personificando a inspiração, sob o olhar contemplativo de quem o fita com a proficuidade de um lavrador que colhe em seu pomar os mais belos, nutritivos e aprazíveis frutos.

 

O "homem memória" é aquele cuja personalidade e consciência são construídas a partir de suas experiências passadas. Sem memória, não haveria linguagem complexa ou senso de self. A memória é intrínseca à natureza humana, moldando a forma como o homem percebe a si mesmo, interage com o mundo e constrói seu futuro com base no passado. Recordar experiências e reconhecê-las permite ao ser humano saber quem ele é e de onde veio.

 

Mnemósine (a memória), é a mãe das Musas e a inventora das palavras e do pensamento. Filosoficamente, a memória é crucial para a existência da linguagem e da comunicação, pois, é a capacidade de lembrar nomes e significados compartilhados que permite a interação social. Segundo Maurice Halbwachs a memória é um fenômeno coletivo e social que influencia a formação das identidades sociais, como nacionais, familiares e culturais. 

 

Filósofos modernos e contemporâneos veem o ser humano como uma consciência em busca de realização, que se desenvolve através do acúmulo e reflexão sobre experiências, orientando ações e promovendo o equilíbrio interior e a humanização. Essa visão sintetiza uma mudança fundamental na história do pensamento: a transição da definição do ser humano como uma "natureza fixa" para um "projeto em construção".

 

O equilíbrio interior não é um estado estático, mas a capacidade da consciência de integrar sucessos, falhas e aprendizados em uma narrativa coerente que promova o desenvolvimento contínuo da própria humanidade. Como propõe Paul Ricoeur, o "si-mesmo" se constrói como um outro, em um diálogo constante entre o que vivemos e como narramos nossa história, o que envolve recordação (lembrança) das experienciações vividas.

 

Lembrar é viver incontáveis vezes na perene busca da mais aprimorada versão de nós, mesmo que a jornada em direção a uma versão melhor de nós mesmos nunca termine, é um esforço contínuo e que se repete ao longo da vida. É um incentivo à introspecção e à busca incessante pelo autoconhecimento e aprimoramento pessoal. Ao revisitar o passado com a intenção de aprender, podemos conscientemente moldar quem nos tornamos no futuro. 

 

Lembrança é algo formidável, o que me faz lembrar que no Brasil, Renato Alves foi o primeiro recordista oficial de memória do país. Seguido por Alberto Dell'Isola, recordista sul-americano conhecido por suas técnicas de associação visual. E eles me fazem recordar do indiano Vishvaa Rajakumar, que se tornou campeão mundial em 2025 ao memorizar 80 números aleatórios em apenas 13,5 segundos.

 

Lembrei-me tanto, e de tantas coisas, que me esqueci que o Dia da Lembrança é um dia para se lembrar, o dia do ano dedicado à (auto)análise no qual rememoramos as mais augustas experienciações vividas, que são o lume formidável das incontáveis (re)contações de nossas Histórias que continuamente virão; e a mais robusta coluna erigida dia a dia com a função de sustentar o porvir mais justo e feliz para nossas vidas. É o momento de respondermos: quem bem fiz ao mundo?

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