quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O NATAL ENSEJA (RE)ARQUITETURA DE VIDAS

 

Somos, incontestavelmente, arquitetos de nós mesmos, e das vidas que experienciamos, no sentido de que, não somente, exercemos grande influência, como também, fazemos escolhas importantes, considerando que trabalhamos dentro das restrições de um canteiro de obras que nem sempre escolhemos ou controlamos totalmente. Normas culturais, expectativas sociais e estruturas sistêmicas (políticas, econômicas) que moldam nossas opções e comportamentos. O Natal simboliza o amor, renovação, esperança e união, mas também incorpora, tradições pagãs de celebração do solstício de inverno, unindo o sagrado com costumes de fartura, presentes e a figura do Papai Noel, focando no espírito de fraternidade e solidariedade. Evoca valores universais de paz, família (consanguínea e/ou não), generosidade e a celebração do ciclo da vida, herdando tradições de diferentes culturas para criar uma festa de união e reflexão.

 

Celebrar a vida envolve cultivar a gratidão, focar no presente, apreciar as pequenas coisas e estar aberto às novas experiências que cada dia pode apresentar e entregar-se ao novo com fé no melhor por vir. Reflete a importância de valorizar e apreciar os momentos do dia a dia, reconhecendo que cada um deles oferece oportunidades únicas para crescimento e alegria, em vez de se concentrar apenas nos desafios ou em grandes marcos futuros. Assim, o momento ideal é o agora, e cada dia deve ser uma celebração da vida e das possibilidades que ele traz. Nascemos para satisfazer, pois, é nosso o dever de buscar o bem-estar dos outros e de fazer ações que edificam, o que envolve agradar o próximo com a mesma intensidade com que procuramos nosso próprio contentamento. O contentamento é um estado de espírito em que se está satisfeito com a própria situação de vida atual, desfrutando de uma paz interior que não depende de circunstâncias favoráveis, mas, das soluções ótimas propiciadas.

 

Não é algo natural para todos, mas, uma habilidade que pode ser aprendida e praticada, como o Apóstolo Paulo expressou: "aprendi a viver contente em toda e qualquer situação" (Filipenses 4:12). Assumir responsabilidade pela própria vida, reconhecendo erros e buscando mudanças, é um caminho para o crescimento pessoal e para a transformação que leva ao contentamento em todos os aspectos do viver humano. Esse contentamento é uma satisfação profunda e duradoura, enquanto a satisfação momentânea é, muitas vezes, resultado de desejos que, ao serem satisfeitos, logo são substituídos por novos. Requer uma mudança de ciclo, um período de transformação e/ou momento de aurorescente inventividade em todos os aspectos do viver humano. O que leva a uma satisfação alcançada através da gratidão pelo que se tem, da autorresponsabilidade em vez da vitimização e de uma confiança espiritual que transcende bens materiais e circunstâncias externas.

 

Como agimos reverbera quem somos pela eternidade. Adotar, pois, uma postura de otimismo e adaptabilidade diante das mudanças, aceitar o que é novo com a crença de que coisas boas estão por vir, agir com resiliência e busca ativamente por oportunidades promovem pessoas otimistas por seu olhar mais aguçado para as oportunidades e as destacam proeminentemente em tempos de mudanças, pois, transformam cada mudança em aprendizado e crescimento pessoal.   Melhorar pede educação, pois, esta ajuda o homem a desenvolver suas habilidades e alcançar a superioridade, indo além do que é meramente humano, e evoluindo perenemente. Este é o influxo do Natal, incitar ações morais guiadas por princípios que possam ser universalizados, como propõe Kant. Envolve destacar e combater as injustiças sistêmicas, tratando a busca pela equidade como um dever moral absoluto, e jamais como uma ação opcional ou secundária. A dignidade de cada indivíduo exige que sua necessidade seja atendida como um fim em si mesma. Isso denota um imperativo categórico porque é obrigatório, uma ordem absolutamente inevitável; embora categórico, porque vale para todas as situações. Ou seja, “o céu estrelado acima de mim é a lei moral dentro de mim", preceitua Kant.

 

A mensagem subjacente ao Natal (paz, boa vontade entre os homens, etc.) promove máximas que podem ser universalizadas, um princípio fundamental do imperativo categórico. Desejar o bem ao próximo não seria apenas um sentimento, mas, um dever racional extensível a todos os seres racionais. A celebração do Natal, nesse sentido, teria valor se servisse para reforçar esse compromisso ético e racional, e não apenas como um ritual ou uma festa sentimental. A ênfase na autonomia da razão na moralidade significa que a celebração do Natal deve ser uma escolha livre e racional, e não uma obediência cega à tradição ou à pressão social. A verdadeira inclusão proposta pelo aminus natalino envolve garantir que todos se sintam pertencentes, adaptando espaços, usando linguagem de sinais (Libras), oferecendo atividades adaptadas e respeitando as necessidades de cada um, combatendo o isolamento e o capacitismo, e transformando o espírito natalino em ações concretas. O Natal inclusivo, com certeza, é aquele que celebra a união, a empatia e o respeito às individualidades, garantindo que ninguém seja deixado de fora da magia da data. A "magia da data" reside, de fato, na capacidade de construir pontes e garantir que o sentimento de união e alegria seja compartilhado por todos.

 

Nessa época, as pessoas tendem a ser mais empáticas e solidárias. Muitos se envolvem em ações de caridade e voluntariado, como a doação de presentes e alimentos, ou dedicam tempo para ajudar os menos afortunados. Esse espírito de partilha também se reflete nos momentos passados com a família e amigos, valorizando a presença e as experiências vividas em conjunto. Portanto, "compartilhar a vida" é uma bela forma de descrever o espírito natalino, que nos inspira a sermos pessoas melhores, valorizando o que realmente importa: as relações e o cuidado mútuo. O Natal é um catalisador de conexões humanas. É um momento para nutrir laços e, ao mesmo tempo, para reconhecer e acolher as vulnerabilidades humanas, exercitando a empatia e o autocuidado. Exercer a capacidade de reconhecer e valorizar a perspectiva, o brilho ou a existência de outra pessoa, é praticar com exatidão a alteridade. “Ser luz na vida dos outros", enfatiza a importância da cooperação que constrói para todos e da generosidade em vez da competição. Na “Ética a Nicômaco”, a finalidade é identificada com o “bem”, ou seja, dizer que todas as ações tendem a um fim é o mesmo que dizer que todas as coisas tendem a um bem.

 

Quem acende uma luz é o primeiro a se beneficiar da claridade, atesta o escritor inglês G. K. Chesterton, pois, ao fazer o bem, ajudar os outros ou espalhar bondade, a pessoa que age é a primeira a sentir os efeitos positivos dessa ação, iluminando-se internamente e colhendo os frutos da sua própria generosidade e boas atitudes. Envolve inteligência emocional, empatia e altruísmo, incentivando as pessoas a serem luz para os outros e, consequentemente, para si mesmas. É uma metáfora similar à ideia de que "o perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores".  A "luz do outro" é a evidência de que importamos dentro de um contexto social, e é essa percepção de importância e aceitação que nos faz sentir verdadeiramente pertencentes a algo maior do que nós mesmos.  Isso significa que valorizar os outros não diminui o seu próprio valor; pelo contrário, cria um ambiente coletivo mais rico e positivo para todos os membros. A “luz do outro” (reconhecimento, valorização e aceitação) que um indivíduo recebe dos seus pares é um fator crucial para o desenvolvimento do senso de pertencimento. 

 

O senso de pertencimento começa quando somos "vistos". Segundo a Pirâmide de Maslow, o pertencimento é uma necessidade básica após a segurança física. Sem a "luz do outro" – ou seja, sem a interação e o feedback social – o indivíduo tende a se sentir invisível. A invisibilidade social é a ausência dessa luz, o que gera sentimentos de exclusão e desamparo. Ao "iluminarmos" uns aos outros, criamos um espaço seguro onde as vulnerabilidades podem ser expostas sem medo de julgamento. É nesse espaço que o "eu" se transforma em "nós". Acender a luz do outro resplandece nossa luz, e o Natal é o momento mais oportuno para rutilá-la. O Natal, por marcar simbolicamente o encerramento de um ciclo anual, incentiva a reflexão sobre as conquistas, desafios, perdas e aprendizados do ano que passou. Assim como, um arquiteto avalia uma estrutura, este período nos convida a inspecionar a "construção" da nossa vida, identificando o que precisa de reparos, o que foi bem-sucedido e o que pode ser aprimorado. A data remete a valores que funcionam como a "fundação" da nossa arquitetura interior, enquanto entes humanos. A "arquitetura de nós mesmos" é, em essência, sobre criar um espaço interno onde esses elementos possam florescer, em vez de nos perdermos em superficialidades materiais.

 

Sermos “arquitetos de nós mesmo é um fervoroso convite à autorreflexão e ao autoconhecimento, sob os auspícios do Natal que nos chama ao cultivo do nosso ser interior – ao controle interno e à indiferença aos bens externos –, em vez de nos apegarmos a bens materiais ou distrações externas. Assim como um arquiteto escolhe materiais, nós selecionamos os pensamentos, conexões e hábitos que ocupam nossa mente. O excesso de "ruído" material e digital costuma entulhar esse espaço interno. Envolve a prática do voltar a atenção para o momento presente e para a autoconsciência, desenvolvendo um "espaço interno" de calma e clareza, com fito no crescimento pessoal, na autorrealização e na busca por significado e propósito que vão além do materialismo. Quanto mais sólida é a nossa estrutura interna, menos dependemos das "decorações" do mundo exterior para nos sentirmos completos. É a transição de viver de fora para dentro para viver de dentro para fora.


Maranguape, Ceará, 25 de Dezembro de 2025

 

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