sábado, 1 de novembro de 2025

01 DE NOVEMBRO – UM TRIBUTO AOS CAMINHANTES DA SANTIFICAÇÃO

Hoje é dia todos os santos, o que me lembra duas coisas importantes para o viver humano. A primeira, que não há santos, porém, inúmeros caminhos para a santificação existem; seguir um deles devemos. A segunda, do negligente abandono sofrido por Luiz Gonzaga Pinto da Gama, cujo a liberdade foi negada, ainda que pleno direito a ela tivesse. Porém, do caos à ordem emerge, como nascem, também, os grandes vultos humanos, como Luiz Gama, chamado de amigo de todos, exatamente, por que passou sua vida cumprindo duas buscas: a inclusão social dos hipossuficientes (negros, mulatos, indígenas, estrangeiros e brancos pobres, etc); ao passo que buscava encontrar sua mãe, a Princesa Malé, Luiza Mahin, que embora forra, foi novamente escravizada e expatriada da Terra Brasilis.

 

Luiz Gama, concitando a elevação dos níveis de tolerância e de empatia, assim (d)escreveu quem sou eu? – mais conhecida como bodarrada – publicado em sua obra "Primeiras trovas burlescas de Getulino" (1859), onde declara: bodes há de toda casta, / Pois que a espécie é muito vasta. Bodes negros, bodes brancos, / E, sejamos todos francos, / Uns plebeus, e outros nobres, / Bodes ricos, bodes pobres, / Bodes sábios, importantes, / E, também, alguns tratantes (...). Tratante mais que o quarenta e quatro desconheço, achando-se oito, pensa-se como universo, que mal gosto! Achar-se vanguardista de novéis séculos, quando a passos largos remonta ao passado, reinaugurando em sua órbita o absolutismo dos príncipes-sol, faraós e/ou Luizes cujo agir é contrário ao homem-exemplo Luiz Gama, cujo legado promana que o coletivo é chama ardente da democracia que faz feliz a humanidade, permitindo ao homem ser homem, irmão de todos.

 

Todos somos irmãos, como diz Luiz Gama: tudo marra, tudo berra – Na suprema eternidade, onde habita a Divindade, Bodes há santificados, que por nós são adorados. Entre o coro dos Anjinhos Também há muitos bodinhos…[…]. Todos cônscios de que entre a lei e a vontade o que reina é o que há estabelecido, porque a lei representa as normas e regras formais que foram criadas, acordadas e institucionalizadas por uma sociedade ou autoridade. Ela estabelece a ordem, os limites e as consequências para as ações, visando a convivência e a justiça. A vontade individual, embora importante, geralmente se submeter ao que está legalmente estabelecido para que haja um funcionamento social coerente e previsível. O que desperta meu autoquestionamento: por que devemos submeter nossas vontades?

 

Entre o ritual e a vontade o que reina é o que estabelecido, pois, tem peso histórico e cultural que se impõem aos desejos individuais. As sociedades são construídas sobre rituais e leis que, para funcionarem excelentemente, exigem a submissão dos desejos pessoais. Viceja uma sugere uma reflexão profunda sobre a tensão entre a tradição (o ritual) e o desejo individual (a vontade). O que ela implica é que as normas, regras e estruturas sociais já existentes e aceitas (o estabelecido) prevalecem sobre as inclinações pessoais. Indago: Devo vencer minhas paixões?

 

Efluindo rio ao mar, entre o ritual e a vontade o que reina é o, ordenamento jurídico, destacando assim o papel central e superior da lei e das normas legais (o ordenamento jurídico) na regulação das relações humanas, em detrimento de práticas tradicionais (rituais) ou desejos individuais (vontade). O ordenamento jurídico é a estrutura que garante a ordem, a justiça e a previsibilidade, estabelecendo os limites e as regras que todos devem seguir, independentemente de crenças pessoais ou costumes. Indago: A regularidade face ao ordenamento e prontidão em servir me garantem um viver feliz?

 

Rituais e tradições não podem se sobrepor à lei quando há conflito entre eles. O ordenamento jurídico moderno busca proteger a diversidade cultural e religiosa, porém, estabelece limites claros. Nenhuma tradição ou ritual pode ser usado como justificativa legal para cometer um crime, violar direitos quaisquer (humanos, fundamentais, etc. ou desobedecer às leis vigentes no país (inclusive estatutos sociais). A lei existe, em parte, para arbitrar esses conflitos e garantir que os direitos de todos sejam respeitados, tornado a vida feliz. Indago: Há um alguém mais empoderado que outro?

 

Uma das mais antigas tradições terrenas, dita progressista desde sua ciese duma forma especialíssima, bucando preservar-se de inovações inapropriadas e, nisto, visando garantir sua integridade essencial ao logo das eras, estabeleceu-se sob leis e princípios não escritos e imutáveis aos quais chamam de landmarks (cláusulas pétreas), dentre deles o determina a forma de governo de suas instituições turva o discernimento dos egos protuberantes: a administração de uma Loja por um presidente e dois vice-presidentes. Indago: Estão eles acima do ordenamento jurídico que os estabelece?

 

A posição destes, Presidente e Vice-Presidentes, não é apenas uma regra de procedimento ou um estatuto que pode ser alterado, mas sim, e unicamente um elemento essencial da estrutura e identidade das antigas tradições, reconhecidos como um marco que sustenta a integridade da instituição ao longo dos séculos, desde que sejam respeitáveis cumpridores dos bons princípios (dogmas de família), de todo o ordenamento jurídico do país em que vivam, do estatuto social e do ritualismo da instituição que representam e que lhes dá representatividade. Indago: somente o legal prospera?

 

A prosperidade construída sobre bases ilegais ou antiéticas é insustentável a longo prazo, passível de colapso devido a consequências legais, perda de confiança ou conflitos internos. Em um contexto social, institucional e, também, empresarial, a conformidade legal e a transparência geram confiança, o que é fundamental para o crescimento e o estabelecimento de relacionamentos saudáveis e duradouros. A legalidade liga-se à integridade, sendo um pilar essencial para uma vida plena e bem-sucedida, que vai além do mero acúmulo de bens materiais. Indago: há felicidade na ordem?

 

A organização da vida interior e exterior libera energia para viver com propósito, além de ser fundamental para a saúde mental e o bem-estar. Os estoicos ensinavam que vencer a si mesmo e organizar a vida é essencial para se alcançar a felicidade. Uma rotina organizada, especialmente aquela que acomoda atos de gratidão, gentileza e autocuidado, também contém momentos de felicidade diária.  A felicidade para Platão é o resultado de uma vida dedicada ao conhecimento progressivo até atingir a ideia do bem, o que implica uma ordem moral e intelectual. Indago: Agir correto é ser-se feliz?

 

A ordem (seja ela moral, interna ou externa) é um pré-requisito ou um componente essencial para uma felicidade genuína e duradoura. Segundo Agostinho de Hipona, em consonância com Tomás de Aquino, a paz, associada a uma forma de felicidade ou tranquilidade, é definida como a "tranquilidade da ordem" (tranquillitas ordinis). Isso implica que a verdadeira paz e felicidade só podem ser alcançadas quando há uma ordem correta das coisas, tanto na sociedade quanto na alma individual, alinhada com a ordem espiritual. Indago: a ordem requer autodisciplina?

 

A autodisciplina é o vetor que estabelece, mantém e restaura a ordem em diversas áreas da vida. Sem ela, a tendência natural é o caos ou a desorganização. Em ambientes de trabalho ou na sociedade em geral, a ordem depende do cumprimento de regras, horários e responsabilidades por parte dos indivíduos, o que exige autodisciplina. É necessária autodisciplina para resistir à preguiça, à procrastinação e aos hábitos desordenados, como também, manter a clareza mental e a organização dos pensamentos. Indago: autodisciplina é autorrespeito?

 

Ao praticar a autodisciplina para manter compromissos consigo mesmo (como cuidar da saúde, estudar ou trabalhar em seus objetivos e/ou cumprir o que há estabelecido), essencialmente, honra-se os próprios valores e aspirações. Isso reforça a mensagem interna de própria relevância e que as metas traçadas merecem esforço, o que, por sua vez, aumenta o autorrespeito. A autodisciplina é uma ferramenta poderosa que leva ao fortalecimento do autorrespeito, pois demonstra cuidado e consideração por si mesmo no longo prazo. Indago: o autorrespeito faz respeitáveis? 

 

O autorrespeito envolve reconhecer seu próprio valor como ser humano, e essa percepção interna influencia diretamente como os outros o veem e o tratam. O respeito externo é, em grande parte, um reflexo do respeito interno que a pessoa cultiva por si mesma. Se você não se respeita, torna-se difícil esperar que os outros o façam. Pessoas que se respeitam geralmente irradiam uma sensação de dignidade e autoconfiança, o que naturalmente atrai o respeito alheio. O autorrespeito sólido permite que o indivíduo se posicione e exija o respeito merecido. Indago: Sois o que dizem que tu és?

 

A teoria do reconhecimento (notavelmente desenvolvida por Axel Honneth) sugere que o reconhecimento jurídico é fundamental para o desenvolvimento do autorrespeito. A partir do momento em que o direito reconhece um indivíduo como um sujeito de direitos e deveres — com igualdade perante a lei — nasce a consciência do autorrespeito, que é a convicção de possuir os mesmos direitos básicos que os outros. Não é à toa que a tradição mais longeva in voga, contrariando ao quarenta e quatro, promana aos quatro cantos da Terra a democracia como aferidora dos méritos e deméritos, como também, prolata a igualdade relativa como garantidora da excelente governança que a torna uma das instituições mais proeminentes mundialmente. Indago: em sede de democracia há alguém mais poderoso que outro?

 

O princípio central da democracia é que o poder (soberania) pertence ao povo. A igualdade perante o ornamento jurídico é um robusto pilar da governança democrática, pois, é a garantia de que todos, sem distinção de qualquer natureza (origem, raça, sexo, etc.), estão sujeitos às mesmas leis e têm direito à igual proteção da justiça, portanto, em momento algum do tempo, o que há estabelecido deixará de reinar pacificando a lei e a vontade absolutista. Como também, em qualquer lugar da Terra, sempre reinará o estabelecido harmonizando o ritual e a vontade individual. Assim, resta ao homem o cumprimento de um desígnio sublime: ser feliz e praticar o bem enquan­to vive, instrui o Rei Salomão (Eclesiastes 3:12). Indago: faz o bem aquele que se desrespeita não cumprir o que há estabelecido?

 

A sabedoria convencional e a maioria dos códigos morais sugerem que fazer o bem geralmente envolve respeitar a si mesmo e aos outros, o que inclui cumprir com as obrigações e regras estabelecidas, pois, estas são a espinha dorsal para a coexistência pacífica e o bem-estar geral. O desrespeito e o descumprimento, via de regra, não resultam em "fazer o bem". O autodesrespeito (implicado na falha em cumprir o que foi estabelecido consigo mesmo ou com outros) mina a autoestima e a credibilidade do indivíduo, como também, o faz, virilmente, a quaisquer instituições às quais esteja ligado. Ser humano é mais do que uma constatação, é uma aceitação, um autorreconhecimento, um lume que abraça àqueles fazem incluídos todos os seus pares, incondicionalmente, pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela igualdade e pelo respeito à autoridade e à crença de cada um, agências criadoras da ambiência social digna do homem que constrói dia a dia a humanidade em si, como fez Luiz Gonzaga Pinto da Gama e muitos outros que caminham sob sua luz.


Um comentário:

  1. A prática da civilidade que inclui respeito mútuo, cortesia entre os seres e a observância das boas maneiras hoje está cada dia mais raro meu Irmão Bruno. O Ser Humano em si acha mais fácil burlar o sistema do que fazer a coisa certa para que tudo fique justo. Assim caminha a humanidade como diz Lulu Santos.

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