sexta-feira, 10 de outubro de 2025

ENTRE A INTELIGÊNCIA E A SABEDORIA ESPIRITUAL A FELICIDADE EXEMPLA A PAZ

 

Entre a felicidade e a sabedoria espiritual a felicidade exempla a paz, aduz a consciência de que a felicidade se encontra na interseção entre a inteligência e a sabedoria espiritual, onde a sabedoria "exemplifica" ou demonstra a paz. A inteligência é a capacidade de processar informações, enquanto a sabedoria espiritual envolve uma compreensão mais profunda das questões da vida, a aplicação prática do conhecimento divino e a capacidade de agir com base em princípios espirituais, o que leva à verdadeira paz interior.  

A inteligência espiritual deve ser contemplada afora do mental, ou seja, envolve nossos valores, virtudes, sentido diante da vida. Podemos compreender que a inteligência espiritual é a capacidade do ser humano equilibrar sua razão (QI - Quociente de Inteligência) e sua emoção (QI - Quociente Emocional) com o mundo exterior com base em suas crenças, valores e ações corretas/funcionais – e assim, encontrar o seu propósito de vida. Destaco que a espiritualidade aqui tratada não conota religião ou religiosidade.

Espiritualidade é tudo que é capaz de produzir no ser humano, uma mudança de pensamento, atitudes e conceitos, que o coloque em um novo rumo e lhe ofereça um novo sentido para a vida. Não sendo necessário, de forma alguma, aderir a uma religião determinada, nem seguir uma instituição religiosa para desenvolver a espiritualidade. Presume-se que indivíduos com espiritualidade acentuada são mais cientes do significado que conferem à vida, assim como mais “fortes” e perseverantes.

O vínculo entre o homem e o divino é pessoal e íntimo, sem manifestações externas, nem rituais, o que me remete ao Egito, ao Templo de Luxor (XIV a.C.) que no átrio anuncia: "O corpo é a casa de Deus”. E, em seu interior, admoesta: “Homem, conhece a ti mesmo, assim conhecerá os deuses”. Na Grécia, no Templo de Delphos (IV a.C.), este saber retumba: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não o acharás em lugar algum".

Neste influxo, ratifica Adenauer Novaes, em sua obra Psicologia e espiritualidade, ao dizer que: "o processo de busca interior pela espiritualização requer envolvimento num processo de reconhecimento e percepção de si mesmo na condição de espírito imortal. Nesse processo é fundamental a autoanálise e a compreensão dos estágios em que nos encontramos em relação às várias dimensões da própria vida”. A espiritualidade está associada à busca do sentido da vida que transcende o mundano.

A ciência e a espiritualidade podem caminhar lado a lado na exploração do que nos torna humanos. Há séculos e, até mesmo, milênios, abordamos a espiritualidade de diversas formas, na arte (gravuras rupestres), pela linguagem (construção dos grandes mitos caldaicos, mesopotâmicos, sumérios, greco-romanos e judaicos), pela filosofia, pela teologia e, nos últimos anos, pelas ciências, que se moveram na busca pelo entendimento do homem em todas as suas realidades.

A partir de descobertas nos anos 2000, cientistas encontraram evidências de que o cérebro humano foi programado biologicamente para fazer perguntas filosóficas e subjetivas, como “quem sou eu?” ou “o que torna a vida digna de ser vivida?” O "ponto de Deus" é um conceito que se refere a uma região do cérebro ligada à espiritualidade, à percepção de algo divino, à experiência de transcendência, à memória e às emoções. Está região incita a busca por um significado e por valores para nossas vidas.

Destaco que Descartes [filósofo francês, 1596-1650], afirma ter reconhecido o lugar, situado no cérebro humano, de onde emanam a presença e as ações divinas, que de forma física representa a nossa “casa mais elevada” (segundo André Luiz no livro No Mundo Maior) localizado no lóbulo frontal. O lóbulo frontal realiza uma ampla gama de funções, incluindo planejamento, tomada de decisões, raciocínio, controle de impulsos e funções executivas, que abrangem atenção e organização, inclusive a produção da fala.

O lóbulo frontal influencia a forma como interagimos com os outros e julgamos o certo e o errado, despertando a consciência de nós mesmos, como um homem mais integral, capaz de melhor entender os próprios sentimentos, de melhor se conhecer, através de valores que dão um maior sentido à vida, fruto da união entre o físico, o mental, o emocional e o espiritual. Um homem capaz de trabalhar suas dores e, ao mesmo tempo, encontrar um sentido de amor mais universal, fecundamente verdadeiro.

Nosso cérebro (triuno), formado de uma inteligência: intelectual, emocional e espiritual, é responsável, não somente, pela capacidade de socialização, mas também, e principalmente, pela espiritualização. A inteligência espiritual depende do equilíbrio com as outras inteligências. Dificuldades emocionais profundas podem dificultar o acesso à espiritualidade, que é como uma fonte de sentido e motivação que precisa ser "desobstruída" por meio do autoconhecimento, que está ligado à autoconsciência, compaixão, altruísmo e à capacidade de se conectar com o "porquê" das coisas.

Neste momento, em que nosso senso de humanidade e existência é colocado extremamente à prova, a Inteligência Espiritual aclara a sinergia de inteligências e conhecimentos, com os quais podemos lidar com os aspectos imateriais do dia a dia, como: valores, propósitos e consciência social. Se todos agissem com base na interdependência que há entre todas as coisas e nós, haveria menos desequilíbrios sociais e ambientais, e as pessoas cuidariam umas das outras como se cuidam a si mesmas, pois todos somos um.

A consciência social está diretamente relacionada à responsabilidade social e, isso, inclui a sensibilidade às desigualdades, injustiças e outros problemas sociais, bem como a disposição para tomar ação para melhorar a situação. O termo inteligência espiritual criado pelos pesquisadores Ian Marshall e Danah Zohar, inaugurado no livro QS Inteligência Espiritual, fita o conhecimento da espiritualidade como lume para uma vida harmoniosamente direcionada à busca por um enriquecimento do eu interior

Desenvolver essa capacidade é desenvolver a habilidade que permite estabelecer melhor equilíbrio entre a razão e a emoção, impactando de forma positiva a saúde e o bem-estar mental. Lembro, neste momento, da Regra de Ouro estabelecida por São Luis Alberto Hurtado Cruchaga: “É bom não fazer o mal; mas, é mal não fazer o bem”. O verdadeiro amor deve levar a praticar o bem (…), a sujar as mãos nas obras de amor.

O grande desafio no mundo da matéria é aprender a transformar o egoísmo extremo em que está mergulhada a humanidade – e que gera uma série de conflitos internos e externos – num ato de receber para compartilhar amor, alegria, bondade, tempo, saúde e conhecimento, “pois eu estou dividido pelo bem do amor; para haver a possibilidade de união,” revela o Alcorão Sagrado. Solidariedade é um sentimento de reciprocidade e empatia que leva as pessoas a se ajudarem e a se comprometerem com o bem-estar do outro. 

A principal forma de caridade é querer bem as pessoas. Ressalto que o amor fraternal vetoriza um forte sentimento de carinho de uma pessoa por outra, ao ponto dessa pessoa se dedicar e ter um elevado interesse pela outra. A sociedade impõe comportamentos considerados apropriados para a chamada “boa convivência” e os comportamentos fora do padrão vigente são relegados às sombras. Luz para o aceitável, escuridão para o inaceitável. Eis a dualidade!

Ressalto que para Platão, existem dois mundos, ou seja, a realidade estava dividida em duas partes: O mundo sensível (mundo material), mediados pelas formas autônomas que encontramos na natureza, percebido pelos cinco sentidos; e o mundo das ideias (realidade inteligível) denominado de “mundo ideal”, ou seja, aproxima-se da ideia de perfeição de algo. Ou seja, através do conhecimento é possível transcender do mundo material ao mundo das ideais e contemplar as ideias perfeitas, alcançando assim, a felicidade.

A busca da felicidade através da inteligência espiritual possibilita um processo de melhor conhecimento de si mesmo. Quando os eventos da vida, podem ser pequenos ou grandes, assumem um significado maior, as pessoas que têm uma espiritualidade maior acabam tendo uma capacidade maior em lidar com o estresse, além de serem mais propensas a agradecer pelos eventos agradáveis da vida e a processar com mais estabilidade os desafios. Epicuro, cunhou o termo "ataraxia": imperturbabilidade da alma.

A felicidade espiritual reflete a paz interior e a satisfação que vêm da fé e da espiritualidade. A fé estimula a produção de dopamina e endorfina, neurotransmissores ligados ao prazer e à redução do estresse. Orar e meditar ajudam a diminuir os níveis de cortisol (hormônio do estresse). Estudos científicos reconhecem que pessoas doentes que assumem uma postura de fé reagem melhor aos procedimentos e se recuperam mais rápido, atingindo um estado de espírito positivo, de bem-estar, contentamento e satisfação.

A felicidade pode ser cultivada e aprendida, e é um hábito mental que pode ser vibrante e positivo. Está relacionada com a forma como se percebe o mundo e a qualidade das relações. O budismo busca a felicidade usando conhecimento e prática para atingir a equanimidade mental. Salomão diz que feliz é o homem que encontra a sabedoria – provérbios 3:13. Sabedoria espiritual é um conhecimento profundo e intuitivo sobre a natureza da existência, da consciência e do universo.

Sabedoria espiritual é uma compreensão que vai além do intelecto e se baseia na experiência direta e na conexão com o divino. A sabedoria espiritual nos leva a experimentar a vida através do coração, atendendo a chamada da iluminação evolucionária, em uma profunda introspecção de autoconfiança e equilíbrio com o Ser Maior, nominado e cultuado singularmente por cada etnia humana. O poder da sabedoria espiritual se expressa no respeito a nós mesmos, pois, é influxo da paz.

Ser um pacificador vai muito além de gostar da paz ou de viver em paz. É ser uma pessoa que promove a paz, que se dedica a fazer reinar a paz. É aquele que através de seus atos e atitudes promove mudanças profundas no meio em que vive e convive. Logo, um indivíduo que apresenta essa característica só pode ser alguém que recebeu a sabedoria advinda da espiritualidade que dele diz: bem-aventurado filho de Deus – Mateus 5:9. Sendo assim, ser um agente da paz nos faz exemplo a alcançar por quem o vê!

Ser um agente da paz significa ser um farol de esperança e uma prova viva de que a harmonia é alcançável. As ações e o comportamento de um pacificador demonstram a possibilidade de um mundo melhor, inspirando aqueles ao seu redor a seguirem o mesmo caminho de respeito e compaixão, pois, agir pela paz não significa evitar confrontos, mas sim abordá-los com uma perspectiva diferente, sabendo que entre a felicidade e a sabedoria espiritual a felicidade exempla a paz, a justiça, a equidade, a compreensão mútua, estabelecendo a graça de uma vida plena.  

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