segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O PÓRTICO DESVELA MISTÉRIOS INEFÁVEIS

 

Arquitetonicamente constituído por uma passagem ou entrada coberta, o Pórtico é, comumente encontrado na entrada de edifícios, templos, palácios ou residências, funcionando tanto como proteção contra intempéries quanto como elemento decorativo e simbólico. Composto por elementos verticais (colunas ou pilares) e horizontais (vigas ou arcos), com uma cobertura que forma um espaço abrigado. Conforme o número de colunas tem sua distinção: distilo (2), tetrastilo (4), octostilo (8) etc.


O termo vem do latim porticus, que significa "passagem coberta", pois, é sua a missão de proteção contra chuva, sol e vento. Porém, também, é seu o dever de delimitar áreas internas ou externas; servir como ponto de transição entre o interior e o exterior. Gracioso, transmite grandiosidade e reflete o estilo arquitetônico de uma época e/ou cultura de um povo, por exemplo: o Pórtico Leste do Capitólio dos EUA e/ou o Pórtico da Glória, na Catedral de Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha.


Grego de nascimento, é largamente utilizado em edifícios diversos, como o Partenão e, posteriormente, adotado pela Roma Antiga, como no Coliseu. Internacionalizou-se e, rapidamente, realizou-se como um elemento clássico que continua presente na arquitetura contemporânea para adicionar charme e funcionalidade, sendo também um importante elemento de design para a valorização da fachada, dando-lhe significado.


Biblicamente, o pórtico tem assento importante na História do Homem e na aliança (relacionamento) com o Sagrado. O "Lar" em Berseba: Tel Be'er Sheva (“o poço dos juramentos) é identificada como o local onde Abraão, Isaque e Jocó viveram e cavaram poços. O local preserva ruínas da época dos patriarcas, incluindo a área do portão da cidade, (o "pórtico" de entrada), usado para comércio, administração e encontros sociais.


Embora, a Bíblia não descreva a arquitetura específica com “pórtico” (no sentido de um pórtico clássico ou pilar), a vida de Isaac foi estabelecida em Berseba (ou Be'er Sheva), um local onde Abraão cavou um poço e fez um pacto de paz. A casa de Isaac simboliza a herança recebida de Abraão, o cumprimento da promessa de uma grande descendência ali semeada.


Em um sentido bastante simbólico, o “pórtico” ou a porta de entrada para a vida de Isaac é a obediência incondicional de Abraão no sacrifício no Monte Moriá (Gênesis 22), que adornou de bençãos e de graças a vida de Isaac. Claramente, a estrutura física descrita é de um poço de água, que assegura a vida e que sustenta as famílias de Canaã, ou seja, o poço tornou-se pórtico: proteção contra as intempéries e beleza contemplativa.


Curiosamente, existe ainda, uma famosa estrutura da Idade do Bronze conhecida como "Portão de Abraão" em Tel Dan (monte dos Juízes e/ou dos julgamentos), concretizando a promessa de que a descendência de Abraão "possuiria a porta (o pórtico) de seus inimigos", uma expressão de vitória e conquista para aquele destinado a ser o “Pai” de duas grande nações: os descendentes de Isaac – israelitas – e os filhos de Ismael – árabes.


Destinado a proporcionar estabilidade e a suportar cargas verticais (peso próprio, carga acidental) e horizontais (vento, sismos), os pórticos são cruciais para a rigidez global da estrutura em todos os aspectos do viver humano. Os ensinamentos disseminados no Stoa Poikile (Pórtico Pintado), fundado por Zenão de Cítio 300 a.C. em Atenas, embasam a psicologia moderna, especialmente a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).


Diferente de outras escolas que eram fechadas, o “Pórtico Pintado” era um espaço público, simbolizando uma filosofia prática voltada para a vida cotidiana, portanto, promovia claramente a inclusão social a partir do compartilhamento de experiências e conhecimentos, homogeneizando os bons hábitos e princípios, como este que é o pilar da TCC: "não são as coisas que nos perturbam, mas, o julgamento que fazemos delas".


Os filósofos do “Pórtico Pintado” chamados de "médicos da alma", buscavam ajustar a mente ancorados em em quatro virtudes cardeais: sabedoria, justiça, coragem e disciplina (temperança). Essas qualidades são usadas hoje para ajudar pacientes a lidar com ansiedade e adversidades através da racionalização dos fatos sob mestria de psicólogos que atuam na reestruturação cognitiva para promover o bem-estar.


Destinada a tornar feliz a humanidade a Maçonaria tem no pórtico o exato o local onde se busca a luz, simbolizando a transição da ignorância para o conhecimento que aperfeiçoa moral e espiritualmente o homem por ela acolhido. A característica mais proeminente do pórtico são as duas colunas: Jaquim (estabelecimento, firmeza e a bênção divina) e Boaz (força, vigor e sustentação espiritual), baseadas no Templo de Salomão.


No contexto maçônico, o pórtico representa a transição simbólica entre o mundo profano e o sagrado, marcando o limiar que o maçom atravessa ao ingressar na Loja. Atravessar o pórtico não é apenas um ato físico, mas, um rito de passagem espiritual, onde o adepto do Maçonaria deixa para trás as preocupações mundanas e se prepara para o trabalho interior e para a busca pela luz do conhecimento, que repouso no seu íntimo.


Neste intento, o Maçom é instruído pelo que há escrito no Pórtico do Templo de Delfos: “conheça-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo, pois, se o que buscas não achares primeiro em ti, não acharás em lugar algum”, onde o ser humano é levado a ver-se como um microcosmos - um reflexo do universo inteiro. Conhecer a si mesmo, portanto, é abrir-se para a compreensão do cosmos e do sagrado em nós.


Incontestavelmente, o pórtico é muito mais do que uma estrutura arquitetônica destinada a garantir beleza e segurança aos construções físicas. Como diz Franz Hartmann, no livro En el Pórtico del Templo de la Sabiduría, “o pórtico é uma metáfora contundente para o início do caminho esotérico, um limiar antes do santuário da sabedoria oculta”. Reflete a transição do conhecimento exotérico (superficial) para o esotérico (interior).


O pórtico representa o limite onde o buscador deve deixar para trás seus velhos hábitos e percepções para entrar em um novo estado de consciência. No livro Entre o Pórtico e o Altar, essa metáfora é clara: Jesus desce do pórtico da glória para o altar do sacrifício, simbolizando uma jornada espiritual. O pórtico é um ponto de conexão com a sabedoria prática, de acesso ao autocontrole para o estabelecimento de uma vida virtuosa.


Maranguape, Ceará, 16 de Fevereiro de 2026


Bruno Bezerra de Macedo
Patroneado por Álvaro Nunes Weyne
Cadeira AIMI nº 9


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