segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

QUAL A RELEVÂNCIA DA CIRCUNFERÊNCIA (DO CÍRCULO)?

 

Qual a relevância da circunferência (do círculo)? Eis uma indagação recorrente em minha mente desde ontem. E já são algumas as respostas. A primeira e a mais augusta: é um traçado do compasso – dependente do absoluto (o ponto) –, onde tudo dele dentro tem mais valia, pois, o compasso é símbolo dos céus, do espírito e do pensamento, nas diversas formas de raciocínio. E tudo dele fora é desalento, imprecisão e demérito.

 

O ponto e o círculo simbolizam o início do Universo, a perfeição espiritual, a união dos elementos, a energia e a plenitude do ser completo. O círculo é, também, um símbolo de movimento, como a roda e as habitações de todos os povos nómadas que dispunham os seus acampamentos também em forma de círculo protetor. Denota, ainda, a atividade e os movimentos cíclicos dos planetas representados nos horóscopos e no Zodíaco, à volta do Sol.

 

O círculo é um símbolo do destino, para os persas. Na Cultura Islâmica, o simbolismo geométrico é fundamental, e o círculo é associado à perfeição, à unidade divina (Tawhid) e à eternidade. Embora a Ka'ba seja um cubo negro, o movimento ritual ao seu redor, conhecido como Tawaf, é estritamente circular – dentro de um círculo branco em Meca –, refletindo uma ordem cósmica e a igualdade dos fiéis diante de Deus.

 

A Ka'ba está situada no centro da Mataf, uma área pavimentada de mármore branco polido dentro da Grande Mesquita de Meca (Masjid al-Haram). Este pátio circular facilita o fluxo contínuo de milhares de peregrinos que realizam o ritual simultaneamente. O contraste entre o cubo negro (estabilidade, o mundo terrestre) e o círculo de oração (movimento, o espiritual/celestial) é central na estética e teologia islâmicas.

 

Durante a peregrinação (Hajj ou Umrah), os muçulmanos circundam a Ka'ba sete vezes no sentido anti-horário. Este movimento circular simboliza a unidade da comunidade global (Ummah) e o foco central em um único Deus. Espiritualmente, o Tawaf é uma harmonia com o universo, assemelhando-se ao movimento dos planetas e elétrons que também orbitam em trajetórias circulares. O ato de circundar a Caaba é um microcosmo da ordem universal.

 

Na tradição sufi, celebrada pelo poeta Mevlana, a dança dos Derviches Giróvagos, ou rodopiantes, é feita em círculo, simbolizando o movimento cósmico da espiral. Assim, seja através do campo de Higgs ou do movimento de cargas gerando campos magnéticos, a "circularidade" (ou ciclicidade) é o que permite a estabilidade do universo. Sem esse movimento, a energia se dissiparia em linha reta e a matéria complexa nunca chegaria a se formar.

 

No sistema solar, os planetas orbitam o sol em sentido anti-horário. Da mesma forma, as galáxias e sistemas estelares seguem padrões de rotação orbital que mantêm o equilíbrio do cosmos. Apenas Vénus gira em sentido horário, em uma rotação retrógrada. E dentro do átomo, os elétrons orbitam o núcleo. Com o olhar mecânica quântica, percebemos nas partículas fundamentais como elétrons uma propriedade chamada spin (giro).

 

Embora o spin não seja um "rodopio" físico como o de um pião clássico, ele se comporta matematicamente como um momento angular intrínseco. Sem esse movimento/orientação, a estrutura da matéria e as interações eletromagnéticas não existiriam, portanto, esse movimento circular é a base da matéria e da energia. O círculo é a forma da totalidade. Nele, a energia não se perde, mas, se transforma e se mantém em equilíbrio dinâmico.

 

Para os muçulmanos, essa semelhança simboliza que o ser humano, ao realizar o Tawaf, está sintonizando sua adoração com a "adoração natural" de toda a criação, reconhecendo um único centro — Deus (Allah) — como o eixo em torno do qual toda a vida e a existência devem girar. O místico Ibn Arabi descreveu Deus como sendo "tanto a circunferência quanto o centro de um círculo", simbolizando que Ele abrange toda a existência.

 

A arquitetura muçulmana, e romana, utilizavam o arco, que é uma secção do círculo, e que simboliza o céu e o divino. O arco é também um símbolo de elevação e de triunfo. O círculo é, também, considerado um sinal de expansão a partir do ponto inicial e o ponto pode ser considerado o resultado de uma contração a partir do círculo. O infinitamente grande e o infinitamente pequeno. O círculo é a forma do ovo primordial

 

A ideia do Ovo Cósmico (ou Hiranyagarbha no hinduísmo, ou o Ovo de Orfeu na tradição grega) representa o estado de potencial absoluto, onde toda a matéria e energia do universo estavam concentradas em uma forma geométrica perfeita e fechada. O movimento circular impede que a energia se disperse no vazio infinito, forçando-a a interagir consigo mesma, o que gera a densidade que percebemos como matéria.

 

Na cosmologia moderna (Big Bang), o universo começou como um ponto de densidade infinita. Embora não fosse um "ovo" físico, era um estado de unidade total. O círculo é o símbolo geométrico dessa unidade: um ponto que se expandiu mantendo a mesma distância do centro, criando um espaço onde o tempo e a matéria poderiam passar a existir. Sua forma esfera/oide oferece a maior proteção com a menor área de superfície.

 

Na natureza, o Átomo, orbitado por nuvens de elétrons criam uma "casca" esférica de probabilidade. A Célula, unidade básica da vida, é essencialmente circular/esférica. O Ovo Biológico contém todas as instruções para a complexidade da vida em um ambiente fechado, autossuficiente e providencial ao progresso. O círculo como "ovo" também remete ao conceito de que o fim é o início.

 

Sendo, pois, o círculo a forma do ovo primordial, então a expansão desse círculo é o que chamamos de vida e o seu movimento é o que chamamos de tempo. O tempo circular e cíclico da tradição e da Antiguidade opõe-se ao comum e moderno conceito de tempo linear. O que me faz lembrar que para os índios da América do Norte, o tempo é expresso em círculos, acompanhando o movimento do Sol, da Lua e dos ciclos das estações (equinócios e solstícios).

 

No Islamismo moderno existe uma interpretação popular do versículo 79:30 do Alcorão, pois, alguns estudiosos associam a palavra árabe dahaha ao formato de um ovo de avestruz, sugerindo que Deus deu à Terra (e por extensão à ordem cósmica) uma forma geoesférica ou ovóide. Essa geometria sagrada conecta o ritual humano (o movimento circular em torno da Ka'ba) à estrutura do cosmos e à promessa do Paraíso.

 

Na tradição islâmica, o Paraíso (Jannah) é frequentemente descrito em níveis ou camadas. O Profeta Muhammad referiu-se aos encontros de lembrança de Deus (dhikr) como os "círculos (ou jardins) do paraíso" na Terra. Teólogos como Al-Biqaa'i sugeriram que os sete céus são círculos concêntricos que cercam o mundo, reforçando a ideia de que a perfeição celestial é circular ou esférica.

 

No budismo, os círculos concêntricos são uma representação do aperfeiçoamento interior e da evolução espiritual. O que me faz evocar, a Távola Redonda que, além de ser um símbolo lendário associado ao Rei Arthur, e seus cavaleiros na literatura Arturiano, representa a igualdade e a fraternidade entre os cavaleiros, pois, sendo redonda, não há uma posição de destaque, indicando que todos os participantes têm a mesma importância e voz.

 

Símbolo da coesão de propósitos comuns de justiça e proteção do povo, a Távola representa a transição da força bruta ("Poder faz o Direito") para a justiça moral. Nela havia um lugar reservado exclusivamente para o cavaleiro de coração puro destinado a encontrar o Santo Graal, simbolizando que a perfeição do círculo só seria completa com a virtude espiritual absoluta. Em termos místicos, ela reflete à perfeição do universo e à Última Ceia.

 

Algumas versões da lenda indicam que a Távola foi criada para representar a redondez do mundo e o céu estrelado, pois, Deus “é o que está assentado sobre a redondeza da terra, cujos moradores são como gafanhotos; é ele quem estende os céus como cortina e os desenrola como tenda para neles habitar; é ele quem reduz a nada os príncipes e torna em nulidade os juízes da terra. (Isaías 40:22-23). É, pois, símbolo de respeito, disciplina e ordem.

 

O respeito é o círculo sagrado que contém a natureza mais selvagem e transforma a brutalidade em vivaz harmonia, seja íntima, seja em relação a tudo que há, na interdependência que nisto se desvela. ​Dentro desse círculo, há disciplina e honra. Fora dele, apenas o caos. Jamais se deixe esquecer, a verdadeira maestria começa antes do agir e perdura nos efeitos que promove: alteridade, inclusão incondicional e pertencimento, vetores do amor – elo perfeito.


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