O discernimento alveja e
aflui consciência, pois, é um caminho ativo que leva a um estado mais elevado
ou mais claro de consciência. O ato de discernir (capacidade de
avaliar, julgar e distinguir com clareza o certo do errado, o bom do ruim) tem
um foco ou um objetivo (alvejar significa
apontar para um alvo). Esse objetivo é a busca pela verdade, pela clareza ou
pela compreensão profunda das situações.
Em contextos de filosofia,
espiritualidade ou psicologia essa agência fulcra uma declaração de
princípio sobre o desenvolvimento pessoal e a expansão da consciência através
do foco e da busca pelo discernimento. Como resultado desse foco e dessa busca
(do discernimento), a consciência (percepção,
autoconhecimento, entendimento do mundo e de si mesmo) expande-se ou se
manifesta de forma natural e contínua (flui).
Desenvolver essa
habilidade é crucial para tomar decisões acertadas, distinguir o bem do mal,
evitar enganos e agir em conformidade com a própria fé ou propósito. Em
diferentes contextos, o discernimento se manifesta como uma inteligência
prática e uma sensibilidade espiritual, guiando a conduta e o pensamento. O
discernimento aflora a proba (auto) instrução, sedimenta conhecimentos e
favorece a boa convivência social.
Na sociedade
contemporânea, o discernimento se torna ainda mais imprescindível devido
ao excesso de informações e distrações, permitindo que as pessoas tomem
decisões alinhadas com seus valores e que resistam às pressões culturais e
sociais. Afinal, "não se deixem enganar: as más companhias corrompem
os bons costumes". (1 Coríntios 15:33) Assim, o discernimento é um forte
combatente das aparências na sociedade moderna.
Na era das redes sociais,
onde avatares e vidas "perfeitas" são criados, o discernimento é uma
ferramenta ótima para reconhecer que essas representações muitas vezes não
correspondem à realidade, que é imperfeita e complexa. O discernimento permite
separar o que é essencial do que é trivial ou enganoso, ajudando a filtrar
informações e a identificar o que as coisas realmente são, além de sua
"embalagem" externa.
Apesar dos desafios, o
discernimento não somente pode, mas, principalmente, deve ser cultivado. Isso
envolve desenvolver o pensamento crítico, questionar a origem dos critérios que
usamos para decidir, considerar diferentes pontos de vista e buscar a sabedoria
através da experiência e da reflexão. É um exercício contínuo de separar o que
é certo do que é conveniente, e o que é verdadeiro do que é apenas aparente.
O que é conveniente
muitas vezes oferece o caminho mais fácil, rápido ou socialmente aceitável no
curto prazo. O que é certo (ou ético/justo), por outro lado, pode exigir
sacrifício, coragem ou a defesa de princípios, independentemente das
consequências imediatas. A busca pelo "certo" é um exercício de
caráter. E ter caráter envolver ter aclarado discernimento. Reflete a valiosa
importância do pensamento crítico e da reflexão moral contínua.
O aparente é a
superfície, a impressão inicial, aquilo que a maioria aceita sem questionar. O
verdadeiro exige um aprofundamento, um olhar crítico e a disposição de ir além
das ilusões ou das narrativas pré-estabelecidas. É a busca pela essência em
detrimento da forma. Essa jornada de discernimento é o que nos permite tomar
decisões mais conscientes e viver uma vida com maior significado, (re)
inaugurando o senso de propósito.
O senso de propósito é
poderoso combatente ao vitimismo, ao incentivar a responsabilidade
pessoal e a busca por soluções, em oposição à postura de impotência e à
atribuição de culpa a fatores externos, características do comportamento
vitimista. O vitimismo oferece um "papel cômodo" onde a pessoa
se coloca como vítima das circunstâncias, isentando-se da responsabilidade de
agir ou mudar sua situação, o que alivia a pressão da incerteza.
Em uma sociedade onde os
laços são frágeis e a identidade é maleável, o vitimista busca atenção e
validação através da autopiedade, tentando garantir algum tipo de conexão
social, mesmo que baseada na pena. As lágrimas do vitimista são usadas,
consciente ou inconscientemente, como forma de manipulação emocional com a qual
mobiliza a (escassa) empatia alheia e obtém apoio ou isenção de obrigações.
Quem não chora, não mama!
Para o vitimista chorar bem
é mais que preciso, é crucial, pois, para ele, a ideia de evolução e
progresso sem mérito parece não apenas possível, mas até devida ou a única
forma de reconhecimento. A mentalidade vitimista se caracteriza por uma contumaz
recusa em assumir a responsabilidade pessoal pelos próprios resultados,
preferindo culpar fatores externos, como outras pessoas ou as circunstâncias da
vida.
Em vez de buscar o
progresso através do trabalho e da superação, a pessoa espera que os outros a
reconheçam e a ajudem simplesmente por causa de seu sofrimento percebido ou de
suas "injustiças" (sempre questionáveis). Essa visão impede o
crescimento real e o aprendizado com os desafios da vida. Ou seja, permanecer
na posição de incapacidade justifica a falta de ação e, consequentemente, a
falta de progresso real.
Neste lodo social, efloresce
do senso de propósito a sensação de que o que se faz contribui para algo mais
amplo e valioso, além das tarefas do dia a dia. Esse propósito é uma bússola
interna que dá motivação e força para superar desafios e encontrar satisfação
em áreas como carreira, relacionamentos, voluntariado ou causas sociais, pois,
a resiliência e a felicidade vindas da sensibilização positiva dos feitos e
efeitos dissipam as névoas do vitimismo.
Pessoas com um senso de
propósito bem definido tendem a ser mais resilientes, ou seja, têm maior
capacidade de lidar com situações adversas e se recuperar de dificuldades. Elas
veem os desafios como oportunidades de crescimento, e não como confirmações de
um destino injusto. Ter um propósito claro direciona a energia do
indivíduo para a ação e a realização de metas, em vez de focar na autopiedade
ou na lamentação.
A psicologia positiva
enfatiza a importância de encontrar significado na vida como um dos pilares do
bem-estar e da realização pessoal. Essencialmente, o senso de propósito
desloca o foco da narrativa de "por que isso está acontecendo
comigo?" para "o que posso fazer com o que aconteceu comigo?",
capacitando o indivíduo a ser o protagonista da sua própria história. A busca
por um propósito oportuniza autoconhecimento.
O autoconhecimento
fornece a clareza sobre seus desejos, valores e limitações, permitindo que o
discernimento atue, avaliando informações e escolhendo o melhor caminho e/ou o
melhor propósito, seja em uma situação profissional, pessoal ou vocacional. O
discernimento transforma o conhecimento e a informação em sabedoria prática, alcançando
o mais alto nível de consciência de como se vive e se relaciona com o mundo.
Sem a capacidade de
analisar criticamente os fatos, contextos e motivações (o
"discernimento"), a História da humanidade seria apenas um amontoado
confuso de eventos desconexos ("escuridão"). O discernimento oportuniza
a majoração do controle sobre o pensar e o agir, a experienciação de propósitos
dignos e desenvolvimento sustentável, reduzindo o “piloto automático” e os
julgamentos automáticos sob o influxo do mais elevado nível de consciência.
Esse estado mais elevado
consciência, em algumas tradições filosófico-espirituais, é chamado de turya
(de Samadhi ou Satori noutras tradições) ou o
"quarto estado" (além dos estados de vigília, do sono e do sonho) e
descreve um estado de pura clareza, compreensão e conexão com o todo. É o
estado de iluminação, alcançado a partir de diversas práticas como: meditação,
mindfulness, Ioga, exercícios de respiração e gratidão.
O discernimento impele a
sabedoria de agradecer mesmo em dias difíceis, vendo cada dia como uma nova
oportunidade. A gratidão, por sua vez, é a base para um discernimento mais
eficaz. Ao reconhecer e valorizar o que já se tem, a pessoa se torna mais sábia
para tomar decisões sobre o futuro. Cada decisão afeta não apenas o indivíduo,
mas também, tudo que o orbita e o mundo em geral, moldando o futuro coletivo. O
futuro depende do discernir melhor!
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