quinta-feira, 20 de novembro de 2025

CONSCIÊNCIA TEM COR?

 

A ciência explica a cor com a interpretação do cérebro para diferentes comprimentos de onda da luz. É uma construção neural, não uma propriedade intrínseca da consciência. A cor é um quale (plural: qualia), que se refere à qualidade subjetiva e irredutível da experiência consciente (como é “sentir” o vermelho ou o azul). Embora a experiencia da cor faça parte consciência, a consciência em si não tem cor, mas sim, o palco ou o processo em que essas experienciações ocorrem.

 

As cores são importantes porque influenciam nosso humor, comportamento e percepção, sendo usadas para comunicar emoções, criar sensações e até mesmo para fins terapêuticos. A percepção das cores também é influenciada pela cultura e tradição. Por exemplo, o branco pode significar pureza no Ocidente, mas luto em algumas culturas orientais.  Portanto, as cores afetam diretamente nosso estado mental e emocional, e seu uso consciente pode criar um ambiente que reflita a função desejada.

 

As cores podem evocar uma ampla gama de emoções, desde calma e criatividade até energia e concentração. O uso inteligente de cores é crucial em projetos artísticos e de design para transmitir ideias e sensações específicas. A escolha das cores afeta a legibilidade, o contraste e a mensagem geral de uma prospecção laboral e/ou social. Empresas utilizam cores para criar uma conexão emocional com o público. O vermelho e o amarelo, por exemplo, dizem-se estimular o apetite.

 

A relevância das cores alcança além comunicação, desempenhando funções imprescindíveis na psicologia humana, no desenvolvimento cognitivo e até na sobrevivência na natureza. Para crianças, o contato com as cores é vital para o desenvolvimento sensorial, motor e cognitivo, estimulando a visão e a expressão de sentimentos. No ecossistema, cores vibrantes das flores atraem insetos polinizadores, essenciais para a reprodução das plantas, que nos supre, no mínimo, de oxigênio. 



A cor é uma ferramenta poderosa que permeia todos os aspectos da vida, influenciando nossa percepção, decisões e bem-estar de maneiras muitas vezes imperceptíveis. A cor no marketing social é usada para influenciar o comportamento e a percepção do público, ancorada na psicologia das cores, que, não somente, estuda como as cores afetam emoções, comportamento e percepção, como também, se faz estratégica para a criação de identidade forte, para cativar a atenção da coletividade.

 

A psicologia das cores é usada para criar hierarquias visuais, aumentar o engajamento e influenciar a percepção do usuário sobre o conteúdo. A cor negra (ou preta) tem diversos significados, dependendo do contexto, variando entre luto, elegância, mistério, poder e força. Cultura e historicamente, está associada a conceitos como morte, negação, introversão, autoridade, sofisticação e rebeldia. É importante não cair em preconceitos, como: "rosa é só para mulheres".

 

Embora fundamental na campanha da Consciência Negra, simbolizando o orgulho da identidade negra, a resistência histórica contra o racismo e a luta por igualdade racial, a cor da pele negra não é a causa do preconceito racial, mas sim, o principal alvo de uma estrutura social e histórica de racismo que atribui significados negativos a essa característica física. O preconceito não é inato à cor, mas, uma construção social e ideológica, pois, quando instaurado, é daltônico.

 

Incapacidade de ver a cor/diferença, a pessoa preconceituosa ignora as particularidades de cada indivíduo, focando apenas em marcadores de grupo preconcebidos (como raça, gênero, classe social etc.). Em alguns contextos, como o "daltonismo cultural" ou "racial" em ambientes educacionais, o termo é usado para descrever uma atitude, muitas vezes não consciente, que acaba por discriminar grupos minoritários ao não reconhecer ou valorizar suas identidades e necessidades específicas.

 

Segundo os dados do Censo 2022, o Brasil apresenta-se de maioria parda pela primeira vez, com 45,3% da população se declarando parda. Pela primeira vez, desde o primeiro censo em 1872, o número de pardos superou o de brancos, que representam 43,5% da população, refletindo tanto a evolução da demografia quanto fatores sociais, como a percepção individual e a forma como as pessoas se identificam em relação ao contexto socioeconômico e às relações interraciais.

 

O preconceito opera através de generalizações apressadas e estereótipos, distorcendo a percepção da realidade social, tornando o indivíduo incapaz de valorizar a riqueza da diversidade humana. A pessoa "daltônica" para o preconceito vê todos de um grupo minoritário de uma única maneira, muitas vezes negativa ou inferiorizada, sem reconhecer suas qualidades e complexidades únicas; e não percebe que as populações autodeclaradas pretas e pardas, são a maioria populacional do Brasil:

 

  • População parda: 45,3% (92,1 milhões de pessoas).

  • População branca: 43,5% (88,2 milhões de pessoas).

  • População preta: 10,2% (20,6 milhões de pessoas).

  • População indígena: 0,8% (1,7 milhão de pessoas).

  • População amarela: 0,4% (850,1 mil pessoas). 

 

O racismo brasileiro, embora seja uma questão estrutural complexa que afeta toda a população negra (que engloba pretos e pardos), a intensidade da discriminação varia de acordo com o tom de pele, num fenômeno social chamado colorismo. Conceito sociológico, o colorismo explica que, dentro da própria comunidade negra, pessoas com a pele mais escura (retinta) e traços fenotípicos mais afrodescendentes sofrem mais discriminação e têm menos oportunidades do que pessoas negras de pele mais clara.

 

Historicamente, o Brasil sob o discurso da miscigenação mascara a existência do racismo e dificulta o reconhecimento do problema. Somente 72% dos brasileiros reconhecem a existência do racismo no país e apenas uma minoria (cerca de 30%) admite ter preconceito individualmente, o que demonstra a natureza velada e estrutural do sistema complexo que impacta desproporcionalmente as pessoas negras, com diferentes gradações de discriminação baseadas no tom de pele de cada indivíduo.

 

Neste toar, os tambores do Povo Banto, Malê, Angolano, Congolês, Sudaneses etc., enfim, de toda África residentes no Brasil rufam despertando a consciência da identidade, cultura e valor da população negra, emergindo o movimento social antirracista com notáveis conquistas como, a Lei nº 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas e instituiu a Lei de Cotas que abraça os autodeclarados pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência.

 

A consciência parda, branca, preta, indígena e amarela, além de ser um ato de orgulho da identidade brasileira, serve como ferramenta para refletir e combater o racismo estrutural e a desigualdade social que persistem no Brasil, sob a égide da filosofia de Empédocles de Agrigento: “somente os iguais se reconhecem, pois, o conhecimento é obtido por meio do contato entre elementos semelhantes”. Para Empédocles nosso conhecimento está no coração e o veículo que o transporta é o sangue.

 

Embora digam que há sangue azul, dele não tive prova e, por isso, radica-se a certeza de que, incontestavelmente, somos todos iguais, pois, todos nós temos, não somente o sangue de cor vermelha, mas também, que este sangue guarda uma biblioteca imensa (genoma) que diz ao homem que a África é berço da humanidade, como nos desvela o Australopithecus afarensis (Lucy), que há milhões de anos habitou o continente africano com sua família de primeiros homens povoadores da Terra.

 

O sangue chama o homem à razão e Empédocles de Agrigento diz: “quando o amor ou a amizade é mais forte os elementos se juntam em uma unidade”. Assim, todos os seres humanos pertencem a uma única "família" e devem tratar-se como irmãos e irmãs é um pilar de muitas crenças e movimentos humanitários. A Encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti (Todos Irmãos), por exemplo, aborda a fraternidade e a amizade social como caminhos para um mundo melhor, onde a felicidade sermos um reina.

 

Felicidade é a razão de ser da Consciência Parda, Branca, Preta, Vermelha (Indígena) e amarela, que fomenta o diálogo e o respeito entre diferentes etnias, combatendo a discriminação e almejando uma sociedade mais justa e igualitária para todos, onde o racismo estrutural e as desigualdades raciais que ainda persistem no mercado de trabalho, na educação e no acesso a oportunidades, cedam lugar à alegria de abraço inclusivo, empático e respeitoso – tripé sobre o qual amor nos colore de humano.

 

Nesta sede de amor fecundo, loquaz e eficaz, a felicidade da humanidade aperfeiçoa os costumes, a alteridade ensina tolerância que iguala, o respeito semeia a irmandade, a autoridade protagoniza a caridade (amor in voga, em ato) e a crença de cada um converge para convicção de que: ‘se alguém diz: eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois, quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu? (1 João 4:20). O amor é uma força essencial aprimora nossa humanidade.

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